Resta esperança

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A que ponto se pode chegar por conta de tantos desvios de conduta e usurpação dos cofres públicos
Como não há saída democrática fora da política, os políticos usam e abusam do poder que têm e destroem a esperança de milhões de brasileiros para sobreviverem com dignidade.
Temos mais de dez milhões de desempregados, famílias inteiras vivendo de cestas básicas doadas pelos colegas e a população. A recessão provocada pela má gestão e muita corrupção atingiu fatalmente até servidores do Estado.
Isso acontece no país que já foi considerado como a oitava economia mundial.
A que ponto se pode chegar por conta de tantos desvios de conduta e usurpação dos cofres públicos.
Não foi para isso que lutamos pelo retorno à vida democrática. Sonhávamos com um país livre onde pudéssemos usufruir da riqueza se houvesse realmente distribuição igualitária entre todos. Mas políticos movidos pela ambição desmedida e com tendências criminosas jogaram o país e sua população no fundo desse poço fundo e escuro.
Talvez um dia possamos reverter essa situação e conseguirmos sair vitoriosos. A esperança é a última que morre!

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Dom Paulo Evaristo Arns, o último Quixote do Pacto das Catacumbas

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A morte do arcebispo emérito de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, levou o último Quixote do “Pacto das Catacumbas”, selado por 41 bispos presentes ao Concílio Vaticano II, que fizeram juramento de “viver como pessoas comuns”, sem pompa nem riqueza.
Em 1959, quando o papa João XXIII convocou de surpresa o Concílio Vaticano II, mais de três mil bispos de todo o mundo foram a Roma para discutir o futuro da Igreja, que na época havia se distanciado do mundo. Faltaram apenas os bispos que estavam na prisão nos regimes comunistas do Leste da Europa.
Entre aquele exército de prelados tinha de tudo, desde os mais conservadores, entre eles os espanhóis, que nutriam a esperança de que depois do Concílio “as águas voltariam ao seu curso”, aos mais progressistas que, como João XXIII, compareceram ao Concílio com uma esperança de renovação, como, por exemplo, os brasileiros, que se distinguiram por seu apoio à chamada “Igreja dos pobres”.
Entre os brasileiros, destacou-se o recém-falecido arcebispo emérito de São Paulo Dom Paulo Evaristo Arns, que tinha 40 anos na época. Eu assisti às sessões do Concílio como enviado especial do jornal Pueblo, de Madri, em plena ditadura franquista.
Lembro-me do jovem bispo brasileiro, sempre próximo do grupo de bispos mais abertos e entusiasmados coma aquela primavera da Igreja, especialmente aqueles dos países do norte da Europa.
O bispo brasileiro fazia parte dos 41 padres do Concílio que se reuniram no silêncio das catacumbas de Domitila para fazer um juramento de fidelidade às ideias renovadoras do Concílio.
Foi o chamado “Pacto das Catacumbas”. O documento consistia em 13 promessas, entre elas a de, ao voltar do Concílio, viver em suas dioceses como as pessoas simples, sem palácios ou roupas vistosas, sem bens próprios, compartilhando a vida da classe trabalhadora.
Ali foram lançadas as primeiras sementes da futura Teologia da Libertação, da luta pelos direitos humanos e da defesa dos esquecidos e perseguidos da sociedade, que teria sua maior força na América Latina.
Dom Paulo demonstrou até a morte sua fidelidade àquele pacto nas catacumbas de Roma, onde se esconderam os primeiros cristãos perseguidos, entre eles Pedro e Paulo.
Como outros bispos brasileiros –Dom Helder Câmara e Dom Antônio Fragoso–, Dom Paulo vendeu o palácio episcopal para comprar terrenos nos bairros pobres na periferia das cidades, onde levantou comunidades, enfrentou a ditadura militar e dedicou grande parte da vida a cuidar dos presos políticos e a defender os direitos humanos. Seu trabalho pastoral se desenvolveu principalmente nas favelas pobres de São Paulo.
Religioso franciscano, culto e de uma profunda espiritualidade, especialista no estudo da história dos primeiros séculos do cristianismo, Dom Paulo acabou sendo perseguido pelos dois poderes: o de sua própria Igreja, quando o papa João Paulo II desmembrou a diocese de São Paulo e o recriminou dizendo: “a Cúria sou eu”, e o dos militares golpistas. Morreu convencido de que o acidente de carro que sofreu no Rio foi uma tentativa de assassinato.
Foi fiel até o fim às palavras proféticas de João XXIII quando, ao anunciar a convocação do Concílio Vaticano II afirmou que “a voz do tempo é a voz de Deus” e criticou aqueles que qualificou de “profetas de desventuras”.
Dom Paulo sempre esteve atento à voz de seu tempo e militou nas fileiras daqueles que preferem apostar na esperança e não no pessimismo.

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Marina Silva: Um passo à frente e outro também

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Nesta semana, vivenciamos mais um exemplo do descompasso abissal entre o que clama a sociedade e o que defende a maior parte da classe política. As dez medidas de combate à corrupção, chanceladas por mais de dois milhões de assinaturas, foram atropeladas em nova demonstração explícita de falta de respeito com o que anseia a sociedade e de apego a interesses pessoais e partidários mesquinhos.

Ficou demonstrado também o medo –pânico explícito, em alguns casos– de freios e punições à corrupção, por meio do uso pervertido do poder público para cercear e ameaçar as instituições que investigam e punem.

O Congresso, que deveria representar o povo, foi usado como trincheira em causa própria, como bunker em defesa dos piores costumes e artimanhas da política tradicional que, nos seus estertores, esperneia para que tudo continue como sempre foi.

Já sem disfarces ou constrangimento –e com transmissão ao vivo– expõe sua absoluta falta de compromisso ético com a população, utilizando-se de mandatos de representação coletiva para salvaguardar interesses e práticas que devem ir para o lixo da história. O jogo de cena é repugnante. A sociedade não tolera mais tanta desonestidade e mentira.

Em artigo publicado em dezembro de 2015 –”Dois trilhos para sair da crise”– eu já defendia que “é preciso não compactuar com movimentos erráticos, de salve-se-quem-puder, dos velhos atores acostumados a dominar o espaço da política com sua infindável capacidade de manobra, agora buscando novo polo de atração gravitacional, uma ponte para garantir seu futuro mudando as aparências sem alterar o status quo. É preciso tomar cuidado para não permitir que, sob a oferta dissimulada de um porto seguro na tempestade, fiquem ocultas as mesmas incompetências, privilégios, esquemas de corrupção e desejos inconfessos de frear os rumos das investigações.”

Milhões e milhões de brasileiros, desde 2013, vêm se manifestando em grandes mobilizações que culminaram, nos últimos eventos, com mais de 6 milhões de pessoas em todo o país, em um processo autoral de autoconvocação que dispensou partidos, organizações sindicais e estudantis, líderes carismáticos e caciques burocráticos. Mesmo assim, em lugar de tentar decifrar o fenômeno e dialogar com ele, em favor de mudanças inadiáveis para o país, o que temos como resposta do sistema político?

Em vez de remover as tranqueiras que hoje obstruem o caminho para uma conectividade real com o espírito dessas manifestações, o que temos, pasmem, é mais e mais indiferença e manobras para burlar as expectativas da maioria da sociedade de vir a ter um país passado a limpo.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman afirma que a política está impotente. E que nós adquirimos a liberdade tanto para dizer, como para fazer o que quisermos, menos para mudar o sistema. Então, ele pergunta: se a política é para juntar pessoas para fazer mais do mesmo, para que serve mesmo a política?

No meu entendimento, enfrentar a gravidade da situação política brasileira passa diretamente pelo reconhecimento do papel fundamental desempenhado pelo surgimento de um novo sujeito político independente, que escapa das garras de esquemas centralizadores, dirigistas e messiânicos.

Assistimos também ao desmanche progressivo do nefasto monopólio dos que se arvoram ao direito sagrado de serem donos de causas e bandeiras, para depois –como os fatos vêm fartamente atestando– arrogarem-se à licença, em nome do sentido originário delas, para transgredir sem culpa ou responsabilização. É como se ganhassem a carteirinha de sócio remido do bem, a despeito de qualquer transgressão ou malfeito que façam no presente.

A sociedade não quer mais que as decisões e os recursos que pertencem a todos os brasileiros sejam definidos no balcão de negócios em que se transformou uma parcela considerável do sistema político –ressalvadas as honrosas e heroicas exceções de pessoas, lideranças, autoridades e instituições. Por isso, sua manifestação se dá de maneira autoral, espontânea, criativa e pacífica na defesa de causas comuns.

Diante da tamanha crise que o país atravessa precisamos oferecer todo apoio para essas manifestações que, quando comprometidas com a democracia e o estado democrático de direito, podem nos ajudar a encontrar saídas para nossos enormes problemas.

Além do nosso apoio às investigações, contudo, é igualmente necessário estabelecer medidas estruturantes que previnam a corrupção. O pacote original das dez medidas propostas pelo Ministério Público pode ser o caminho para institucionalizar o combate à corrupção em outro patamar, a começar pelo fim da quase certeza de impunidade. Para isso, é fundamental abraçar essas propostas e lhes dar cada vez mais a musculatura do apoio social, bem como à consolidação dos trabalhos da operação Lava Jato.

Não se pode esperar que a solução para a crise venha da parte degradada, mas ainda poderosa da política, cuja forma de agir e apego aos seus privilégios estão no alicerce da corrupção endêmica que queremos combater. Esse é um momento decisivo de nossa história.

O filósofo Adelmo Genro, de saudosa memória, em sua crítica ao dogmatismo, disse que este era uma espécie de um passo atrás e outro também. O Brasil precisa andar para poder abrir seu caminho. Parodiando Adelmo Genro às avessas, chegou a hora de dar um passo à frente e o outro também.

Marina Silva

é porta-voz nacional da Rede Sustentabilidade, foi senadora (1995-2011), ministra do Meio Ambiente (2003-2008) e candidata à Presidência da República, em 2010 e 2014

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O suicídio de um parlamento

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Domingo, dia 4 de dezembro, estaremos nas avenidas e praças do Brasil como testemunhas do que aconteceu e protagonistas dos princípios e valores que em algum momento, ali adiante, haverão de prevalecer. Há que cumprir o dever moral da persistência! Covardes e inúteis seremos se jogarmos a tolha ante cadáveres morais
Na madrugada desta quarta-feira, 30 de novembro, o parlamento brasileiro suicidou-se moralmente num acesso de fúria contra tudo e contra todos. Do alto de suas gravatas, deputados federais urravam ódio nos microfones. Eles odiavam seus colegas probos, indignavam-se, numa indignação despida de dignidade, ante bons exemplos. E aplaudiam comparsas. Condutas íntegras faziam explodir sentimentos primitivos. Nada, porém, trazia mais espuma à boca e sangue aos olhos do que a atividade de policiais, promotores e magistrados. Tais funções, um dia, poderiam apontar crimes e sinalizar o rugoso caminho da cadeia.

Que país é esse – pensava o Parlamento suicida – onde não mais se pode roubar em paz? Como obter mandato para servir ao povo em nobre atividade sem tomar dinheiro desse mesmo povo? Que mal atacou nossa gente, outrora dócil e tolerante, para levá-la às praças clamar contra meus negócios? De onde saiu essa corruptofobia? Tudo isso pensava e contra tudo isso vociferava o Parlamento enquanto o elevador da arrogância ascendia ao topo das torres gêmeas. E, dali, a queda livre até o solo.

Não se diga que o finado ainda emite sinais vitais. Com efeito, coração bate, pulmões respiram, aparelho digestivo digere. Mas está morto. Morto como um peso morto. É um traste, esse suicida moral. Nós assistimos tudo! Como não atestar, então, seu óbito? O Antagonista resume assim, no rescaldo da madrugada:

• crime de responsabilidade para juízes e procuradores,
• prisão por desrespeito às prerrogativas dos advogados,
• criminosos não terão de devolver a fortuna acumulada com propinas,
• tempo de prescrição continuará com réu foragido,
• partidos não poderão ser punidos pelo roubo.

Estas medidas, que favorecem a Frente Parlamentar da Corrupção, ou Orcrim, no relato de O Antagonista, foram aprovadas pelos partidos com estas proporções:

• PCdoB 100% pró-ORCRIM.
• PT: 98% pró-ORCRIM.
• PRB: 95% pró-ORCRIM.
• PDT: 87,5% pró-ORCRIM.
• PR: 83% pró-ORCRIM.
• PMDB: 82% pró-ORCRIM.
• PP: 81% pró-ORCRIM.
• DEM: 71% pró-ORCRIM.
• PSD: 61% pró-ORCRIM.
• PSB: 57% pró-ORCRIM.
• PSDB: 24% pró-ORCRIM.

Domingo, dia 4 de dezembro, estaremos nas avenidas e praças do Brasil como testemunhas do que aconteceu e protagonistas dos princípios e valores que em algum momento, ali adiante, haverão de prevalecer. Há que cumprir o dever moral da persistência! Covardes e inúteis seremos se jogarmos a tolha ante cadáveres morais.

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Nós nos descobrimos uma república de bananas’ desabafa Barroso

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Barroso demonstrou preocupação com movimentos políticos para frear investigações da Justiça e suavizar leis que podem punir a corrupção. “Há militantes em toda parte no abafa”, afirmou o ministro. …

O Brasil como uma “república de bananas devastada pela desonestidade e pela incorreção” foi o cenário descrito por Luís Roberto Barroso, ministro do Supremo Tribunal Federal, em um discurso ácido na abertura de um seminário na Sede da Procuradoria-Geral da República.

“Sei que há muito choro e ranger de dentes, mas é porque nós estamos mudando o País”, disse. Ele se referia às revelações de escândalos de corrupção e as prisões de agentes públicos e privados desde a Ação Penal 470 e atualmente com a Operação Lava Jato. Segundo ele, esses foram “marcos da mudança de atitude” em relação à corrupção. “Não deixam de ser uma ‘Proclamação da República’ para dizer que o direito vale para todos”, disse.

Barroso afirmou que a “corrupção não tem partido, ideologia; é um mal em si e não deve ser politizada”. “Há uma certa mentalidade se disseminando de que o problema é a corrupção dos outros, e que agora, que já me livrei da corrupção dos de quem eu não gosto, nós vamos fazer uma composição geral”, disse.

“Não dá para achar que a corrupção dos outros é grave e daqueles que eu gosto não tem problema. Aí não é combate à corrupção, mas reserva de mercado”, afirmou o ministro.

Barroso disse que “a ausência de direito penal efetivo criou um país cheio de ricos e delinquentes”. E em momento em que se discute, no Senado, o abuso de autoridade, o ministro defendeu o aprimoramento do sistema penal acusatório. “Ninguém, nem o Supremo nem o Ministério Público, deseja o estado policial. Desejamos um estado democrático, com o devido processo legal, amplo direito de defesa. O que não desejamos é um processo de faz de conta que não termina nunca e é feito para não terminar, para que o crime compense”, afirmou.

Na cobrança por “moralização da Justiça”, incluiu também os advogados. Afirmou que há “advogados de primeira linha interpondo recursos descabidos atrás de recursos descabidos”, a fim meramente de atrasar os processos.

O momento do Brasil é de inflexão, nas palavras de Barroso. Ele utilizou uma cena do filme Match Point, de Woody Allen, para ilustrar. “Há uma cena no início do filme em que a bola bate na rede e não se sabe onde ela vai cair, e isso vai ser decisivo no final. A bola pode cair do lado em que podemos fazer um novo país, ou no lado em que sempre foi”.

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Justiça boa é Justiça justa

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Tema polêmico, que divide o mundo jurídico, a prisão de réus condenados em segunda instância antes de esgotados os recursos nos tribunais superiores foi confirmada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na noite da última quinta-feira. Passa, portanto, a valer para todos os tipos de processo em todo o país.

A decisão mexe profundamente com o Judiciário: dá mais poder e responsabilidade aos tribunais de Justiça e aos tribunais federais regionais, mina a indústria de recursos e, consequentemente, confere maior celeridade à Justiça.

O cumprimento da pena após a condenação em segundo grau já tinha sido aprovado pelo Supremo. Em fevereiro, em uma votação de recurso sobre um roubo – a mesma que foi reafirmada agora –, e no início de outubro, quando foram julgadas ações movidas pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e pelo Partido Ecológico Nacional (PEN), ambas questionando a legalidade da prisão antes da conclusão de todas as fases recursais de um processo.

Os placares sempre apertados, 6 a 5 em fevereiro e outubro e 6 a 4 agora, escancaram o tamanho da encrenca. E com idas e vindas. Nas duas primeiras votações, os ministros Edson Fachin, Luís Alberto Barroso, Luiz Fux, Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Cármen Lúcia foram favoráveis à tese de cumprimento da pena após a deliberação da segunda instância. Ricardo Lewandowski, Marco Aurélio Mello, Celso de Mello e Rosa Weber foram votos vencidos. Desta vez, Cármen Lúcia, presidente da Corte, não votou. Rosa Weber também não. E Toffoli mudou de lado.

Perto do que preconizava o ex-presidente do STF, Cezar Peluso, a saída aprovada pelo Supremo é levíssima. Sua proposta era radical: mudar a Constituição e estabelecer que todos os processos terminassem depois de julgados pelos tribunais de Justiça ou pelos tribunais regionais federais, com imediato cumprimento das penas. Os recursos ao STJ e ao STF serviriam apenas para tentar anular a decisão.

Encabeçados pela OAB, os críticos mais ferozes da tese que prevaleceu no Supremo apoiam-se na garantia constitucional de inocência até que uma ação tenha percorrido todos os caminhos possíveis, o que no Brasil chega à jabuticaba perfeita: o único país do mundo com quatro instâncias, três delas recursais.

Apontam ainda a hipótese de erros cometidos nas instâncias inferiores, quase que questionando a capacidade dos juízes de primeiro grau e dos tribunais. No fundo, sabem que estão perdendo a possibilidade de procrastinar.

Embora velocidade não seja critério de qualidade, a excessiva morosidade – processos que se arrastam por décadas – beneficia o réu e pune a vítima.

Depois de dar entrada em um fórum local onde ficará por alguns meses ou anos, um processo segue para os tribunais de Justiça ou para tribunais regionais federais, dependendo do tipo de ação. Neles, de forma otimista, tramitam por outros dois ou três anos.

No STJ e depois no STF, um recurso leva em média cinco anos para ser julgado em cada uma das casas, sem contabilizar os agravos possíveis no Supremo. Alguns processos superam 10 anos, outros expiram, simplesmente prescrevem.

Ainda que a percepção popular aponte no sentido contrário, os processos mais céleres no Supremo envolvem políticos com fórum privilegiado, que levam de dois a três anos para ser apreciados. Isso depois da formalização da denúncia, essa, sim, não raro muitíssimo lenta. O presidente do Senado, Renan Calheiros, alvo de 12 inquéritos, que o diga.

Para procuradores e advogados de vítimas, a mudança definida pelo Supremo é mais do que bem-vinda, é determinante. Sem ela, as condenações e penas impostas pela Lava Jato correriam risco, milhares de culpados continuariam recorrendo em liberdade. Sem ela, bandidos continuariam a usar a Justiça para encobrir seus delitos. Com ela, a Justiça, que nem sempre consegue ser tão justa, aumenta a chance de fazer Justiça.

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Terremoto político à vista

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Vem aí um rolo compressor sobre o conjunto da classe política brasileira – é o que anunciam fontes da Lava Jato.
A megadelação da Odebrecht, a maior de que se tem notícia, envolve não apenas os donos, mas toda a diretoria – cerca de 50 executivos – da maior empresa privada do continente.
Vem aí um rolo compressor sobre o conjunto da classe política brasileira – é o que anunciam fontes da Lava Jato.
A megadelação da Odebrecht, a maior de que se tem notícia, envolve não apenas os donos, mas toda a diretoria – cerca de 50 executivos – da maior empresa privada do continente.
Atinge, segundo se antecipa, quase todos os presidenciáveis – os principais. Pode ser conhecida ainda este ano, se a Procuradoria Geral da República, que promete validar as delações até o final deste mês, se dispuser a divulgá-la na íntegra.
O próprio Michel Temer foi acusado, esta semana, pela defesa de Dilma Roussef, de ter recebido cheque de R$ 1 milhão para a campanha de 2014, o que ele nega, mas não impede que enfraqueça, perante o TSE, a tese de que as campanhas não se misturaram. E essa mistura, se comprovada, o afasta inapelavelmente do cargo.
Mesmo não se comprovando, a jurisprudência lhe é desfavorável, uma vez que, até aqui, delitos de campanha têm penalizado a chapa, independentemente de quem seja o infrator.
Os presidenciáveis não são os únicos delatados, apenas os mais graduados da extensa lista, de quase duas centenas de nomes. É claro que as acusações, pelo menos parte delas, ainda não se materializaram em provas. Mas, sabendo-se o custo de uma delação falsa – o aumento da pena do delator -, alguma credibilidade acaba obtendo e gerando imenso dano moral e político ao acusado.
Em regra, o fim da carreira. Há deputados (federais e estaduais), senadores, governadores, prefeitos, vereadores – todo o arco dos que disputam eleições e postulam contribuições.
Em resumo, compromete não apenas os políticos, mas o modo como se faz política no Brasil.
As delações confirmam a estimativa de Lula, feita ao tempo em que era constituinte, de que haveria algo em torno de “300 picaretas” no Congresso. Apenas lá.
Ele sabia do que falava, já que não apenas integrava o grupo, mas um dia viria a comandá-lo – e remunerá-lo.
Nem todos são acusados da mesma coisa. A maior parte é de caixa dois, a acusação mais branda. Dentro dela, há duas modalidades: a clássica, que consiste em receber por fora parte da contribuição, que, no entanto, o beneficiário supõe de origem legítima; e a nova, que pesa contra PT, PMDB e PP – e agrava o delito. Nela, o beneficiário sabe que a contribuição provém de dinheiro roubado da Petrobras.
Há aí delitos adicionais: roubo e lavagem de seu produto via Justiça Eleitoral. A chapa Dilma-Temer terá de responder por isso. Mas não apenas: há o roubo sistemático, sistêmico, fora do período eleitoral, às estatais e aos fundos de pensão.
Dilma é pessoalmente acusada por Marcelo Odebrecht de tê-lo abordado mais de uma vez para tratar de recebimentos. Lula é acusado, também por Marcelo Odebrecht, segundo a IstoÉ, de ter embolsado pessoalmente R$ 8 milhões, em dinheiro vivo.
A Câmara dos Deputados, antevendo o terremoto, tentou, na calada da noite de terça para quarta-feira passada, quando as atenções estavam voltadas para as eleições dos EUA, aprovar um projeto salvacionista, que estabelecesse, a partir de agora, punição específica para caixa dois.
O truque é que, aprovada essa lei – o que acabou não acontecendo, graças às denúncias nas redes sociais -, estariam anistiados os que incidiram até aqui no caixa dois, uma vez que a lei, segundo cláusula pétrea constitucional, não retroage para punir. Só seriam alvos os que voltassem a delinquir.
Seria um golpe na Lava Jato, que teria de abandonar investigações nesse quesito, que é dos mais densos até aqui. Não deu certo. Continua em pauta a crônica do terremoto anunciado, que mantém o país sob preocupante instabilidade.
Como, em tal contexto, atrair capitais de investimento? A tentativa de dar alguma sinalização externa positiva, com a aprovação da PEC do teto dos gastos públicos, serve de moldura para que os grupos políticos de esquerda, que destruíram a economia, PT à frente, promovam badernas de rua.
E a inclusão do presidente da República nas delações, ainda que se mostre inconsistente, o enfraquece como autoridade moral para tranquilizar o conjunto da população, que, em sua maioria, votou favoravelmente às forças políticas que ele encarna.
Só que essas forças, segundo essas novas delações, também estão na zona do terremoto. E aí? Pois é: 2018 está ainda a anos-luz da realidade.

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A Revolução Cultural da Lava Jato na Política do Brasil

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Imaginem se os habitantes de Hiroshima soubessem que a bomba atômica iria explodir. Imaginem ainda que, mesmo sabendo, não tivessem para onde fugir. É a situação dos membros do sistema político às portas da delação premiada do empresário Marcelo Odebrecht e de seus executivos dentro da operação Lava Jato.

A gravidade da delação não se mede apenas pela montanha de nomes a serem revelados como beneficiários de recursos de sua empresa nem pelo fato de que membros do governo Temer vão ser atingidos. Três aspectos aumentam a gravidade da situação.

O primeiro é que o esquema a ser revelado traduz nada mais, nada menos que a fórmula do funcionamento do capitalismo tupiniquim. Esquema que existia antes mesmo da era Lula. Criado no regime militar, foi aperfeiçoado na redemocratização. O que Marcelo Odebrecht vai expor será, no mínimo, espetacular e fará com que a Lava Jato passe para a história do Brasil como uma espécie de revolução cultural e episódio mais importante na política brasileira desde o fim do regime militar.

O segundo ponto é que a delação de Odebrecht e de seus companheiros colocará o Supremo Tribunal Federal no centro do julgamento mais crucial da história política do Brasil. Nada do que ocorreu antes no STF – e no Judiciário, de maneira geral – foi tão relevante para o presente e para o futuro do país. O volume de trabalho ali tem-se multiplicado.

Até sexta-feira, o STF tinha 77.159 processos para serem julgados. No Conselho Nacional de Justiça (CNJ), por exemplo, de 432 recursos contra decisões da Lava Jato tomadas na primeira instância, apenas 17 tiveram êxito.

Provavelmente, não temos a melhor composição de ministros da história da Corte Suprema. Mas é o que temos, e vale o que está escrito. Serão eles que julgarão não apenas homens e algumas mulheres, mas todo o sistema político e suas relações com o arremedo de capitalismo que existe no Brasil.
A partir do que acontecer, devemos considerar que ocorrerão mudanças sérias que podem até mesmo pôr em xeque a sobrevivência do governo Temer em médio prazo. No entanto, apesar do caráter de explosão atômica das revelações de Marcelo Odebrecht e de seus companheiros, o governo deve sobreviver, assim como as instituições.

O resultado das eleições municipais, por exemplo, deu fôlego à atual gestão para avançar nas reformas, o que é positivo. O PT, que poderá receber punições mais severas nos tribunais, já mereceu uma dura censura por parte dos eleitores.

O terceiro aspecto será crítico para a regeneração do mundo político. É difícil acreditar que todo o sistema entrará em default. Qual será o desafio? Discernir os crimes cometidos e fazer a dosimetria das penas. O que será considerado corrupção relacionada a obras públicas, o que foi apoio político, o que é caixa 2 e como criminalizá-lo, entre outros desafios.

Com o fim das doações empresariais e o estabelecimento de um teto de gastos de campanha, um novo direito eleitoral já está emergindo da Lava Jato. A questão agora é como definir caixa 2 e como tratar aqueles que distribuíram dinheiro arrecadado dessa forma. O recurso serviu apenas para financiar campanhas eleitorais ou foi mesada para políticos e partidos?

É certo considerar que nada será como antes. E que, para o bem do Brasil, o governo deve ser preservado a fim de que a retomada da economia e a modernização das relações entre governo e empresariado possam prosseguir.

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Maioria dos brasileiros quer menos espaço nas ruas para os carros

Brasília(DF), 13/04/2016 - Ciclovia terminada no parque da cidade. Foto: Rafaela Felicciano/Metrópoles

Brasília(DF), 13/04/2016 – Ciclovia terminada no parque da cidade. Foto: Rafaela Felicciano/Metrópoles

A população afirma que apoia se o motivo for dedicar esse espaço para ciclovias, corredores de ônibus e calçadas

A maioria dos brasileiros (74%) é a favor de ações que reduzam o espaço do veículo particular nas ruas se o motivo for dedicar esse espaço para ciclovias, corredores de ônibus e calçadas, apontou pesquisa sobre mobilidade urbana encomendada pelo Greenpeace ao Instituto Datafolha. A pesquisa foi realizada com 2.098 entrevistados de 16 anos ou mais, em 132 municípios de todas as regiões do país.

Inicialmente, a pesquisa consultou a população sobre três medidas, em perguntas separadas, que desestimulariam o uso do carro. Aquela que teve maior aceitação foi a de redução do número de vagas para carros nas ruas, que teve o apoio de 47% da população. Uma fatia de 41% foi contrária à medida, 9% são indiferentes e 3% não responderam.
A segunda questão foi sobre a redução do número de faixas para carro nas vias, que apresentou tendência inversa: 40% foram a favor da medida e 49%, contra. A parcela de indiferentes é de 8%, e 4% não souberam opinar. O fechamento de determinas ruas para carros, que corresponde à terceira pergunta, foi a questão que teve maior resistência entre os brasileiros: 36% a favor, 52% contra a medida, e os demais indiferentes (8%) ou não responderam (3%).

Após essas questões apresentadas, a pesquisa consultou os entrevistados sobre o motivo para que houvesse a redução do espaço para carros particulares e, somente então, veio a maior aceitação, com 74%.

“Primeiro perguntamos para as pessoas o que elas achavam de cada uma dessas três medidas e em seguida perguntamos para as pessoas se, [por meio] dessas medidas de redução, fosse dado espaço para esses outros meios de transporte, se ela era contra ou a favor. A diferença é que a primeira vez perguntamos só com a medida em si. Mas quando explicamos que isso vai ser usado para dar espaço para outros modos de transporte, as pessoas são a favor”, explicou Vitor Leal, da campanha de Mobilidade Urbana do Greenpeace.

De acordo com ele, as pessoas tendem a concordar com a redução do espaço para os carros quando enxergam um benefício para os outros modelos de transporte. No início, segundo Leal, as pessoas veem essas medidas como uma perda, porque estão tirando espaço do carro, mas depois conseguem ver o benefício de se fazer isso. Segundo ele, é necessário a abertura de diálogo entre o governante e a população para esclarecer a questão.

“Uma das coisas que vemos que é importante a partir desse cenário é que o poder público precisa dialogar mais com a sociedade, explicando melhor para que servem as coisas e não tirar o espaço sem explicar o que está acontecendo.
Fazer uma discussão dizendo olha, vamos colocar mais corredores de ônibus, isso significa que vai ter menos pistas para os carros, mas isso vai diminuir o trânsito, isso vai garantir um transporte de qualidade”, disse.
Preferências

Questionados sobre qual meio de transporte seria escolhido para circular na cidade, se houvesse infraestrutura adequada, o ônibus seria a escolha de 42% dos entrevistados, seguido por carro (23%) e bicicleta (21%) – na prática, os dois últimos estão empatados pela margem de erro de dois pontos da pesquisa.

Para Leal, foi uma grande surpresa perceber que as pessoas valorizam o transporte público. “São dados importantes para vermos que há uma valorização do transporte público e aí entendemos que o poder público não está respondendo adequadamente a isso, porque boa parte dos investimentos vai para espaços para o automóvel”, disse.

“O que está faltando então é as pessoas sentirem que é possível: um ônibus de qualidade, uma tarifa justa, ônibus que não poluam tanto e que não façam tanto barulho, ciclovias, infraestrutura para bicicleta e para pedestre. As pessoas escolhem o carro muitas vezes porque sentem que os outros meios de transporte não tem qualidade suficiente”, acrescentou.

Ele ressalta que boa parte da discussão dos candidatos à eleição na capital paulista se dá em torno da redução de velocidade nas vias, especialmente as Marginais Tietê e Pinheiros, no entanto, não é um tema que atinge a maior parte da população. “É um tema que importa para uma parcela pequena da população, que é a que usa carro e que vai para a marginal e que é contra [a redução de velocidade]”.

“O que fica claro para mim é que as pessoas estão interessadas em como garantir a mobilidade delas e, se significa tirar espaço do carro para dar para outros modos de transporte, isso é ótimo, mas continuamos vendo os discursos de candidatos do Brasil inteiro que continuam falando só para quem anda de carro e, de vez em quando, falam um pouco sobre ônibus de um jeito genérico”, avaliou.

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O Fascínio do Farsante

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O farsante tem características bem parecidas um com o outro quando pego com a mão na botija. É inteligente, fascina, tem desenvoltura ao se expressar e por isso mesmo atrai com facilidade o encantamento popular. Se for político, então, com certeza é um bom puxador de votos, graças à ardilosa eloquência.

Como também é próprio do DNA, o cinismo, deboche e ar de superioridade quando descoberto na prática de atos pouco recomendáveis. Se lhe apertarem o cerco, derrete-se em lágrimas e soluços, assume postura de vítima perseguida e transfere a culpa dos seus pecados para os outros.

Quem não se lembra do choro copioso de ex-deputado Eduardo Cunha depois de caçado o seu mandato por um grande exército de mercenários?!

Pessoas possuídas dessa síndrome, segundo explica a psiquiatria, revelam um comportamento alienado, agem estupidamente, causam desconfortos em seu ambiente social, geram estresse para a vida dos seus semelhantes, apesar da natural capacidade de liderança.

Acuadas, iludem a si próprias, revelam sentimento agressivo e um ar arrogante julgando-se acima de tudo e todos. Dependendo das circunstâncias viram jararacas prometendo derramar veneno no calcanhar dos seus perseguidores.
Ou se fazem de vítimas, tentam vender a imagem de coitadinhas atormentadas pelas elites, apelam para a emoção ao rebuscar suas origens de pobreza, que, por vezes não tinham sequer uma bolacha seca para comerem.

No desespero, compara-se a Jesus Cristo, “o único no universo tão honesto, quanto ele”, o farsante.
Arma-se da velha tática dos corruptos acusados por falcatruas: “a melhor defesa é o ataque”.

No desespero, convoca os fanáticos aliados e estimula a baderna na rua para depredar, destruir, intimidar; prática comum dos velhos e vencidos líderes populares.

Em situação clara e indefensável ante o rolo compressor de provas e indícios dos embrulhos, o farsante perde a compostura. Ridiculariza, debocha e ironiza os acusadores. Esbraveja espumando ódio, xinga e humilha a justiça que investiga sua história marginal de incentivo ao roubo e propinas: “enfiem no… este processo”.

Mas, como diz o velho adágio popular: “a mentira tem pernas curtas!”. O fascínio do farsante tem prazo de vencimento para derreter e sucumbir no seu próprio mar de lama.

O Brasil foi traído, o mundo enganado. O cara é uma grande e bem construída farsa.

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